Militarização das escolas avança sem ouvir os profissionais da educação
Sem participação no processo de escolha do modelo cívico-militar, profissionais da educação da rede estadual estão sendo pressionados a validar uma mudança que desrespeita até mesmo a Constituição Federal.
Publicado: 11/03/2026 11:42 | Última modificação: 11/03/2026 11:42
Escrito por: Roseli Riechelmann
Professores da rede estadual de Mato Grosso manifestaram, nas redes sociais através de mensagens as quais do Sindicato dos Trabalhadores do Ensino Público de Mato Grosso (Sintep-MT) teve acesso, a indignação com o descaso ao posicionamento dos educadores no processo de transformação das unidades para o modelo cívico-militar. Afirmam que a informação divulgada pela Seduc-MT, sobre a participação de servidores no processo de escolha, é falsa.
As manifestações surgiram após o anúncio do pacote de 64 escolas militarizadas na rede estadual em 2026, e diante de um novo pacote anunciado com outras 17 unidades. Segundo os relatos, o processo ocorre sem consulta a quem atua diariamente no espaço escolar: professores e funcionários.
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Conforme uma professora da rede estadual que procurou o Sindicato, mas prefere não se identificar diante da pressão existente nas unidades escolares, especialmente contra quem se manifesta contrário ao modelo. “O bullying não existe apenas entre estudantes”, afirma.

Segundo a educadora, ao contrário do que foi divulgado no site da Secretaria de Estado de Educação (Seduc), não houve participação efetiva de professores e funcionários na decisão sobre a adoção do modelo.
“Sequer ocorreram debates com a comunidade escolar. Na minha escola houve apenas uma ‘assembleia’ com os pais, cuja natureza foi um militar explicar que esse modelo traria segurança e disciplina para a escola”, relata.
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Enquanto vivem um processo de silenciamento, medo e pressão - marcado por assédio e intimidação dentro das escolas, inclusive por membros da própria categoria que hoje ocupam cargos de direção e seguem à risca a orientação do governo - os grupos de WhatsApp têm se tornado espaços de debate entre os profissionais.

Outro profissional da educação, que integrou a gestão de uma unidade militarizada, também confirmou o silenciamento. Conforme relata, são orientados a não se manifestarem sobre a mudança do modelo, nas redes sociais; apenas alguns educadores podem fazê-lo.
“Até onde ouvi, a ordem vem de cima para a mudança das escolas para o modelo cívico-militar. Antes, diziam que era a escola que pedia, chamava a comunidade, conversava e, com a concordância da comunidade, solicitava essa mudança. Mas não é assim que está funcionando. Na verdade, a lista já estava pronta e as escolas, tendo solicitado ou não, iriam para essa consulta pública, e a comunidade foi convencida com o discurso de que seria para garantir segurança.”
Entre os temas que mais repercutiram entre os educadores está a divulgação, por parte do governo, da suposta participação dos servidores na votação. Professores e funcionários contestam essa versão. “Nem professores, nem funcionários participaram desse processo”, afirmam, destacando que os trabalhadores da escola têm sido cada vez mais invisibilizados pelo governo Mauro Mendes.

Sobre a validação de alguns profissionais à militarização, uma professora avalia que isso também se relaciona com a realidade cada vez mais difícil enfrentada nas escolas. Segundo ela, muitos professores acabam aceitando o modelo para lidar com a violência presente na rotina escolar.
“Antes trabalhávamos com 20 turmas e agora são 24, depois de ganharmos mais uma hora-aula. Isso pode significar atender mais de 700 estudantes. Fica difícil até sabermos o nome dos alunos. É um processo de desumanização, uma violência da escola também com os estudantes transformados em números”, afirma.
Nesse cenário, avalia a professora, parte dos profissionais acaba vendo com naturalidade a presença de policiais no ambiente escolar, ainda que isso possa significar restrições ao respeito à diversidade, à individualidade dos estudantes, à livre manifestação e ao direito à identidade.




