Sintep-MT denuncia sobrecarga e adoecimento dos profissionais da nutrição escolar


Com deficit de servidores e acúmulo de funções, rotina exaustiva em cozinhas escolares do estado tem resultado em altos índices de adoecimento laboral

Publicado: 22/05/2026 10:37 | Última modificação: 22/05/2026 10:37

Escrito por: Lina Obaid

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O Sindicato dos Trabalhadores no Ensino Público de Mato Grosso (Sintep-MT) acionou a Seduc-MT, por meio de oficio, onde denuncia a sobrecarga de trabalho que afeta os técnicos de nutrição escolas (antiga merenda).

Conforme explica a presidenta do Sintep-MT, Maria Celma, a entidade protocolou o ofício 048/2026 nesta semana, para cobrar a aplicação da NR-1 - documento técnico, baseado no diagnóstico local, para exigir a garantia de condições dignas de trabalho e a defesa dos direitos dos profissionais da educação.

“O sindicato seguirá firme na cobrança por novas contratações e pela revisão imediata das metas impostas pela Seduc-MT. Continuamos defendendo que a valorização da educação pública passa, obrigatoriamente, pelo respeito à saúde e à dignidade das trabalhadoras e trabalhadores que garantem o funcionamento das escolas.”, destacou a dirigente.

As profissionais e os profissionais relatam melhoria na infraestrutura das cozinhas em que trabalham e na qualidade da alimentação escolar, o que é considerado um avanço para a nutrição dos estudantes; porém, a Seduc-MT ignora a complexidade e os impactos estruturais dessas mudanças nos bastidores. O aumento do número de vezes que é servida a merenda e o aumento do número de pessoas (estudantes e profissionais) que se alimentam.

Maria Celma, presidenta do Sintep-MT.

Nova rotina e o preço do adoecimento
Sem a ampliação do quadro de pessoal, as exigências triplicaram, submetendo os profissionais a um esforço sobre-humano dentro de uma jornada de apenas 6 horas diárias, e o preço é o adoecimento dos profissionais.

Cléia Evangelista, cozinheira da rede pública há mais de 25 anos, relata que a rotina atual inclui o preparo e fornecimento de refeições completas (arroz, feijão, carne, salada e frutas), lanches de entrada e saída, higienização rigorosa de utensílios, limpeza pesada e controle burocrático de estoque.

“É uma falta de respeito a Seduc impor tudo isso sem aumentar o número de funcionários. O resultado é o adoecimento físico e mental”, enfatizou a funcionária que há três anos está em tratamento de saúde devido à pressão e à falta de infraestrutura.

“Hoje estou em readaptação, trabalhando em período integral apesar da condição do adoecimento. E percebo que há uma necessidade urgente de reduzir o número de alunos por cozinheira para restabelecer a qualidade do serviço sem causar o adoecimento laboral”, aponta.

Além do ritmo frenético na cozinha, a categoria denuncia o desvio de função e a cobrança por serviços de manutenção técnica e limpeza pesada estrutural, que extrapolam as atribuições da alimentação escolar.

E ainda segundo a profissional, “nem todas as escolas dispõem de estrutura física adequada para equipamentos como freezers, geladeiras e câmaras frias, ficando tudo no mesmo espaço, o que aumenta o calor e ruídos extremos a que os profissionais são submetidos diariamente”, frisou.

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Desvio de função e metas impossíveis
Lucas Bastos Ferreira Lima, merendeiro há quase uma década, relata que os funcionários são obrigados a limpar diariamente e semanalmente equipamentos complexos, ventiladores, rodapés, janelas, paredes e até o forro do teto da cozinha. Junto com apenas mais um colega, ele é responsável pelo atendimento de cerca de 300 alunos por turno.

“Se pararmos para pensar nessa lógica, que tempo teremos para o preparo dos alimentos? A realidade é caótica. O trabalho triplicou e o cronograma atual é impossível de ser seguido. Nós nos desdobramos, frequentemente extrapolando as 6 horas de turno — sem receber hora extra — para não deixar a sobrecarga acumular para a próxima equipe”, denuncia Lucas.

A presidenta do Sintep-MT, Maria Celma, explica que a entidade acompanha de perto estas demandas, e utiliza do diálogo como principal ferramenta de negociação a favor dos profissionais da educação.

“É dramático ouvir os relatos dos profissionais. Temos buscado o diálogo. Nas poucas vezes em que nos reunimos com a Seduc e nos documentos que protocolamos, cobramos a redução do número de alunos por profissional. A resposta é sempre a mesma: que não tem falta de profissionais nas escolas. É desumano impor 250, 300 alunos por profissional; quem conhece a complexidade de uma cozinha sabe o peso que é cozinhar para tanta gente em tão pouco tempo. Muito trabalho repetitivo, pouco tempo para o preparo entre uma refeição e outra. Não é só cozinhar; tem uma série de atividades que precisam ser realizadas: lavar, limpar, cortar, fazer controle de estoque, servir estudantes etc. Nossa defesa é de 200 alunos por profissional”, pontuou.