Sintep-MT denuncia sobrecarga e adoecimento dos profissionais da limpeza escolar


Sem concursos há mais de uma década, trabalhadores acumulam funções, enfrentam condições precárias e convivem com o descaso do governo estadual.

Publicado: 17/07/2026 18:11 | Última modificação: 17/07/2026 18:11

Escrito por: Lina Obaid

Reprodução

O Sindicato dos Trabalhadores no Ensino Público de Mato Grosso (Sintep-MT) denuncia, mais uma vez, a sobrecarga de trabalho e o adoecimento enfrentados pelos profissionais da educação. Os profissionais do Apoio Administrativo Educacional (AAE) – limpeza escolar -  estão cada vez mais adoecidos e desvalorizados, diante da ampliação da lista de tarefas e atribuições, do reordenamento das funções e da ausência de um efetivo suficiente para atender às demandas das escolas. O cenário se agrava pela falta de concursos públicos há mais de 10 anos, refletindo o descaso do governo com a valorização desses trabalhadores.

Atualmente, o quantitativo de profissionais da limpeza é definido com base no número de salas de aula, de turmas, na área construída e nos turnos de funcionamento das unidades escolares, conforme Portaria da Seduc-MT. Na prática, porém, os educadores convivem com uma realidade muito diferente: adoecimento físico e mental, riscos constantes à saúde, falta de equipamentos de proteção individual (EPIs), exposição a doenças, desvalorização salarial e precarização generalizada das condições de trabalho.

De acordo com a presoidenta do Sintep-MT, Maria Celma Oliveira, a desvalorização dos funcionários da educação é o reflexo de uma gestão autritária e antidemocrática.

"Nos últimos anos temos presenciado a precarização e desmontes das escolas regulares no estado de Mato Grosso com o fim da gestão democrática. Ausência do concurso público para todos os cargos e funções da carreira (professor/as, TAE e AAE), enquanto isso as escolas civico-militares e militares tem gente sobrando, segundo justificativa é para cuidar da disciplina. Por que não se garante o mesmo  número de profissionais da educação e recursos para as escolas não militarizadas? Não temos nada contra militares na segurança pública, mas nas escolas afirmamos e reafirmamos não são profissionais da educação. Recursos da educação é para investir na educação e nos profissionais da educação queremos concurso público da educação que garanta profissionais valorizados, qualificados e respeitados para todos os cargos e funções da carreira em número suficientes para atender as demandas escolares", ressaltou.

Doença adquirida
Um exemplo vivo dessa realidade é a história de Edivane Dias de Jesus, profissional da limpeza escolar, efetiva há 26 anos na rede estadual de Tabaporã. Ela desenvolveu dermatite de contato, doença que causa feridas profundas nos dedos das mãos e dos pés, há 15 anos, como consequência da exposição contínua aos produtos utilizados na limpeza escolar.

Ela relembra que, quando ingressou no serviço público, em 2000, os profissionais sequer recebiam equipamentos de proteção individual. Posteriormente, botas, óculos e máscaras passaram a ser fornecidos, mas, segundo ela, a substituição desses equipamentos demorava anos para acontecer.

"Antigamente não existiam EPIs, então a gente tinha contato direto com os produtos de limpeza. Hoje o uso da proteção individual é obrigatório, mas eu tenho alergia à borracha das luvas e a componentes presentes em alguns produtos de limpeza, que são cada vez mais fortes. Só de entrar no local onde eles estão armazenados, meu corpo já reage com urticária. Teve vezes em que precisei usar as mesmas luvas por dias, e isso agravava meus machucados, além de não ser nada saudável. É uma falta de respeito manter o uso desses produtos sabendo que somos nós que nos expomos diariamente a eles e nos desdobramos para cumprir nossas tarefas e manter a escola limpa", explicou.

A situação da educadora se agrava ainda mais pelo fato da doença ser permanente, além de outras como depressão, que ela já vem enfrentando.

"Hoje, mesmo com diagnóstico em mãos após 15 anos de investigações médicas, o que mais me deixa indignada é que nunca houve nenhum posicionamento por parte do Estado, pra me conceder apoio, nem financeiro e nem mesmo administrativo, como uma sugestão de readequação, por exemplo. E assim como eu, pode ter outros servidores passando pela mesma situação”, destacou Edivane, que atualmente está afastada das funções por 90 dias.

Falta de capital humano
Enquanto a estrutura física das unidades escolares foi ampliada e modernizada, o número de profissionais passou a ser definido pelos critérios de dimensionamento adotados pela Seduc-MT. Paralelamente, novas demandas foram incorporadas à rotina dos profissionais de apoio, aumentando significativamente a carga de trabalho, sem que houvesse a contratação de servidores suficientes para atender essa realidade.

Essa situação é relatada por Sônia Beatriz Ramos Silveira, servidora da Escola cívico-militar Dom Pedro II (antigo André Maggi), em Rondonópolis. Segundo ela, anteriormente na Escola Salmen Henze, que funciona em tempo integral, onde atuou até maio deste ano, o cenário se repete.

Com a implantação do modelo cívico-militar e da educação em tempo integral ampliaram significativamente as demandas de limpeza, mas o dimensionamento da equipe permaneceu insuficiente, apesar das tentativas frustradas de reforçar o efetivo.

"Nunca tem servidor suficiente, e hoje isso só piorou. Antes eram dois por turno, agora é apenas um para uma área imensa. Os turnos são das 6h às 12h e das 12h às 18h. Trabalho no segundo período e até colocaram um servidor intermediário, das 9h às 15h, mas isso não resolveu nada, porque quem entra primeiro já precisa adiantar o serviço para dar conta da demanda antes do outro turno começar. No fim, essa medida não foi eficaz", esclareceu.

Outro ponto levantado por ela é a falta de equipamentos e materiais de trabalho. Segundo Sônia, muitas vezes o próprio servidor é obrigado trabalhar sem os EPI’S, que deveriam ser de responsabilidade e obrigatoriedade do Estado oferecer de forma regular.

"Hoje por exemplo, na escola em que trabalho, não temos máscara e o local está cheio de pombos, colocando nossa saúde em risco, podendo contrair doenças respiratórias graves. Até foi colocado tela de proteção, mas as aves continuam lá. Já está num nível crítico de infestação e ninguém faz nada para resolver, nem uma dedetização sequer. O servidor está sendo tratado como se não fosse nada ", relatou, indignada.

A insalubridade também compromete a saúde e a qualidade de vida desses trabalhadores.
"Nós nos expomos todos os dias a produtos químicos, agentes biológicos, à falta de materiais para nossa própria proteção e até mesmo a pragas, como os pombos que existem na escola onde trabalho. Mesmo assim, não somos remunerados nem reconhecidos de forma justa pelo trabalho que realizamos diariamente. O governo exige cada vez mais, mas segue negligenciando o básico  que são condições de trabalho dignas e diálogo, considerando o capital humano que está ali fazendo a escola funcionar", expressou.

Além disso, Sônia é corredora amadora, e teme pela própria saúde. “Nos próximos dias vou ao médico fazer exames de rotina e espero que esteja tudo ok, porque o risco diário que eu, assim como os demais colegas corremos aqui com os pombos é grave”.