Negacionasmo bolsonarista na pandemia: 700 mil mortes não podem ser esquecidas


Documentário Anatomia do Caos, de Dandara Ferreira, recupera o negacionismo ', o atraso nas vacinas e a dor das famílias; atuação de Flávio Bolsonaro também integra a história da crise sanitária

Publicado: 20/10/2026 18:17 | Última modificação: 20/10/2026 18:17

Escrito por: Redação CUT

Alex Pazuello | Prefeitura de Manaus

A memória é um dos bens mais preciosos de uma sociedade. Preservar o que aconteceu durante a pandemia de Covid-19 significa respeitar os mais de 700 mil mortos no Brasil e reconhecer as decisões que agravaram a tragédia. No momento em que Flávio Bolsonaro disputa a Presidência da República, lembrar a gestão de seu pai, Jair Bolsonaro, também exige examinar o papel do próprio senador naquele período. O passado oferece elementos concretos para avaliar quem pretende comandar o futuro do país.

Entre discursos presidenciais, depoimentos à CPI da Covid e relatos de familiares, o documentário Anatomia do Caos, de Dandara Ferreira, recupera uma história de sofrimento e de escolhas políticas. O vírus atingiu o Brasil, mas encontrou no governo federal uma condução marcada pelo negacionismo, pela promoção de medicamentos sem eficácia contra a doença e por obstáculos à vacinação.

O documentário traz uma retrospectiva de fatos cruciais que comprovam que o enfretamento à COVID-19 no Brasil teve inimigos declarados dentro do poder – um ataque que resultou na morte de mais de 700 mil pessoas no Brasil, colocando o país na segunda posição mundial em número de mortes. O total do Brasil representa 11% do total mundial.

“A gente não elabora o luto no silêncio do esquecimento. Nós precisamos falar e nós precisamos ser escutados”, afirma uma familiar de vítima na abertura do filme. A declaração estabelece o sentido da narrativa: dar voz a quem perdeu pessoas que amava e cobrar respostas de quem tinha a responsabilidade de proteger a população.

Veja o documentário ao final da matéria

Negacionismo no lugar da proteção

Desde o início da emergência sanitária, Bolsonaro minimizou a gravidade da Covid-19. “Pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar”, afirmou, em uma das declarações recuperadas pelo documentário.

A postura presidencial entrou em conflito com as orientações de prevenção. Enquanto profissionais de saúde enfrentavam hospitais sobrecarregados, Bolsonaro atacava restrições à circulação e estimulava a desconfiança em relação às medidas de proteção.

Isso não significa que o país tenha ficado sem atendimento ou sem iniciativas de enfrentamento. Trabalhadores do SUS, instituições científicas e serviços públicos sustentaram a resposta à pandemia. O que o filme expõe é a ausência de uma condução federal responsável e coerente com a gravidade da crise, somada a intervenções presidenciais que contrariavam esse esforço.

A instabilidade também atingiu o Ministério da Saúde. Luiz Henrique Mandetta, Nelson Teich e Eduardo Pazuello se sucederam na primeira fase da pandemia. Posteriormente, Marcelo Queiroga assumiu a pasta, tornando-se o quarto ministro da Saúde do governo durante a emergência sanitária.

No depoimento recuperado pelo filme, Mandetta relata ter encontrado uma proposta de alteração da bula da cloroquina para incluir sua indicação contra o coronavírus. O episódio integra as denúncias sobre a existência de um assessoramento paralelo, que influenciava o presidente por fora da estrutura oficial do ministério.

Cloroquina e ivermectina: a promessa de uma proteção que não veio

A defesa do chamado “tratamento precoce” ocupa parte importante do documentário. Cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina foram apresentadas como respostas à Covid-19, embora não tivessem eficácia comprovada para combater a doença.

O filme relaciona essa propaganda à tentativa de macnter a população nas ruas e as atividades econômicas em funcionamento, oferecendo uma promessa de segurança que os medicamentos não podiam garantir.

Nise Yamaguchi aparece defendendo o tratamento e sendo questionada sobre as evidências utilizadas. Osmar Terra é confrontado com suas previsões sobre a duração e a gravidade da pandemia e com suas posições contrárias ao isolamento.

Para quem precisava trabalhar e temia adoecer, a promessa de um remédio capaz de impedir o agravamento podia parecer uma saída. A consequência apontada pela narrativa é a exposição de pessoas ao vírus sob uma falsa sensação de proteção.

Amazonas: pessoas morreram sem conseguir respirar

A falta de oxigênio em Manaus é uma das expressões mais dolorosas da crise. Familiares procuravam cilindros enquanto pacientes dependiam de atendimento imediato para continuar vivos.

O documentário recupera alertas sobre o risco de desabastecimento e confronta a resposta do Ministério da Saúde com o desespero dentro e fora dos hospitais.

“O que que o Ministério da Saúde tem a ver com produção, transporte, distribuição e logística de oxigênio?”, questiona Eduardo Pazuello em uma declaração apresentada no filme.

A fala sintetiza a discussão sobre a responsabilidade federal. Para as famílias, porém, a urgência não cabia em uma disputa administrativa: era preciso conseguir oxigênio antes que fosse tarde.

Ao ser questionado sobre sua saída do ministério, Pazuello responde: “Missão cumprida”. A declaração é contraposta, na narrativa, à dimensão das perdas e às cobranças sobre sua gestão.

Vacinas: ofertas sem resposta e interferência presidencial

Enquanto o governo promovia medicamentos ineficazes, oportunidades de aquisição de vacinas enfrentavam obstáculos.

Carlos Murillo, representante da Pfizer, relata à CPI que a empresa enviou uma carta a Bolsonaro e a integrantes do governo para reforçar a oferta de imunizantes, sem obter resposta. Segundo seu depoimento, as condições contratuais oferecidas ao Brasil eram as mesmas aceitas por mais de 110 países.

O documentário também recupera a interferência de Bolsonaro na aquisição da CoronaVac, produzida em parceria com o Instituto Butantan. Depois do anúncio de compra pelo Ministério da Saúde, o presidente declarou que havia determinado seu cancelamento.

“Já mandei cancelar”, afirmou. E acrescentou: “Presidente sou eu”.

A fala sobre a possibilidade de alguém “virar jacaré” aparece como outro exemplo de desqualificação pública das vacinas. Enquanto a imunização era tratada dessa maneira, famílias continuavam expostas à doença.

“Eu daria tudo porque meu filho tivesse tido essa chance”, diz um pai que perdeu o filho, ao defender a vacinação. Seu depoimento traduz o significado humano do atraso: a proteção que não chegou a tempo para quem morreu.

Dona Déa Lúcia, mãe do ator e humorista Paulo Gustavo, conta o seu sentimento - de mãe - por ter perdido um filho por conta da irresponsabilidade de um governo.

 

 

Deboche presidencial e dor familiar

Além das decisões de governo, o filme registra a maneira como Bolsonaro se dirigiu a uma população enlutada.

“Tem que deixar de ser o país de maricas”, declarou. Em outra manifestação, disse: “Chega de frescura, de mimimi. Vamos ficar chorando até quando?”, disse o ex-presidente

O documentário também mostra os terríveis momentos em que Jair Bolsonaro imitava pessoas com falta de ar. Uma mulher que perdeu o pai e a mãe descreve o sofrimento provocado pela cena.

Os relatos mostram que a violência não terminou no momento da morte. Continuou na ausência de reconhecimento, nas manifestações de desprezo e nos ataques às homenagens às vítimas.

“Eu não pude dar um abraço no meu filho. Eu não pude dar o último beijo”, conta um pai. Ao falar do que veio depois, enumera: “Cada deboche, cada sorriso, cada ironia”.

Flávio Bolsonaro também fazia parte dessa história

A atuação de Flávio Bolsonaro durante a pandemia precisa ser examinada junto à gestão de seu pai. Como senador e defensor do governo, ele apoiou o uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19 e atuou para desacreditar a investigação parlamentar.

Sua defesa da cloroquina foi registrada em pronunciamentos e manifestações públicas, como mostra a cobertura do Congresso em Foco. Na CPI, sua atuação política esteve associada à defesa do governo e à contestação das iniciativas de responsabilização das autoridades federais.

Outra frente envolve a rede hospitalar federal do Rio de Janeiro. A reportagem da Agência Pública reúne denúncias sobre a influência política do senador na administração dessas unidades durante a crise sanitária.

As apurações citadas relacionam indicações políticas, afastamento de profissionais técnicos e problemas na gestão de pessoal ao fechamento de cerca de 30% dos leitos federais. Também apontam suspeitas de sobrepreço em contratações emergenciais. São denúncias e achados de fiscalização que precisam ser apresentados como tais, sem confundi-los com condenações judiciais.

A discussão, portanto, ultrapassa o vínculo familiar. Envolve as posições que Flávio defendeu, o governo que sustentou e as denúncias sobre sua influência em serviços que deveriam atender a população durante a emergência.

Memória e responsabilidade

O filme também aborda as suspeitas na negociação da Covaxin e as denúncias contra a Prevent Senior, incluindo o uso de medicamentos sem eficácia e a possível ocultação de mortes em um estudo. Os episódios ampliam a investigação sobre o que aconteceu enquanto o país precisava de proteção, atendimento e vacinas.

A CPI deu espaço público aos relatos das famílias e encaminhou propostas de responsabilização. A entrega do relatório à Procuradoria-Geral da República e os posteriores pedidos de arquivamento de apurações aparecem no documentário como parte da frustração de quem esperava justiça.

Para o povo brasileiro, mais de 700 mil mortes não podem ser reduzidas a números, tampouco esquecidas. Elas representam casas esvaziadas, crianças sem pais, despedidas impedidas e pessoas que continuam tentando reorganizar a vida.