Mês da Mulher: fim da escala 6x1 é estratégico para enfrentar a sobrecarga feminina


Redução da jornada, sem redução salarial, é instrumento de justiça social, saúde e igualdade para trabalhadoras que acumulam dupla e tripla jornada

Publicado: 04/03/2026 15:53 | Última modificação: 04/03/2026 15:53

Escrito por: CUT

A redução da jornada de trabalho, sem redução salarial, é uma luta histórica da CUT. Neste Mês Internacional da Mulher, a campanha pelo fim da escala 6x1 (seis dias de trabalho para apenas um de descanso) ganha centralidade por seu impacto direto na vida das trabalhadoras, que seguem submetidas à dupla e, muitas vezes, tripla jornada.

Ao longo de décadas, o movimento sindical tem afirmado que, além do trabalho, existe vida e que o direito ao descanso, ao lazer, à cultura e à convivência familiar e social não é privilégio e sim fator fundamental da dignidade humana. Quando esse debate é atravessado pela desigualdade de gênero, ele se torna ainda mais urgente.

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Dupla jornada e desigualdade estrutural
No Brasil, de acordo com o Censo de 2022, do IBGE, as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e aos cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicam 11,7 horas. Entre mulheres pretas e pardas, a carga é ainda maior: 1,6 hora a mais por semana do que entre mulheres brancas.

Mesmo quando cumprem jornadas formais de 40 a 44 horas semanais, as trabalhadoras seguem acumulando trabalho não remunerado. Mulheres brancas nessa faixa dedicam, em média, 15h47 semanais aos cuidados; mulheres negras, 16h38. Já homens brancos e negros na mesma jornada dedicam cerca de 11 horas.

A secretária da Mulher Trabalhadora da CUT, Amanda Corcino, afirma que discutir jornada é enfrentar a desigualdade de gênero estrutural.

“A jornada de trabalho total, ou seja, a jornada remunerada somada à jornada não remunerada, é muito maior para as mulheres. Por isso a redução é fundamental, especialmente para quem vive dupla ou até tripla jornada”, diz.

Ela alerta que, embora exista mobilização em torno da Política Nacional de Cuidados e da ratificação da Convenção 156 da OIT, a realidade cotidiana ainda impõe às mulheres a responsabilidade majoritária pelo trabalho doméstico.

“Enquanto não se chega ao cenário ideal, a redução é um dos instrumentos para a sociedade proporcionar à mulher ter igualdade, justiça e qualidade de vida”, afirma a dirigente.

Citação O tempo que nós, mulheres, nos dedicamos ao trabalho de cuidados é como se fosse um tempo roubado. As mulheres nunca terão as mesmas 24 horas que os homens,

Escala 6x1 aprofunda sobrecarga
A escala 6x1 está disseminada sobretudo em setores com forte presença feminina, como comércio e serviços. Na prática, o único dia de “folga” costuma ser absorvido por tarefas domésticas acumuladas, compras, organização da casa e cuidados com filhos ou familiares.

O resultado é que o descanso semanal se transforma em mais uma etapa da jornada. Quando se soma trabalho remunerado, deslocamento e trabalho doméstico, há mulheres que ultrapassam 11 horas diárias de atividade contínua.

Segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua), cerca de 75% das pessoas ocupadas no Brasil trabalham 40 horas ou mais por semana. Entre as mulheres, a essas horas se somam, em média, outras 21 horas de trabalho não pago.

Saúde, tempo e direito de viver
A redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6x1 são medidas estratégicas para enfrentar a sobrecarga que recai sobre as mulheres no mercado de trabalho brasileiro. Presente em setores com forte participação feminina, a escala de seis dias de trabalho para apenas um de descanso aprofunda a dificuldade de conciliar emprego e responsabilidades domésticas, já que o tempo fora do trabalho formal costuma ser absorvido pelo cuidado não remunerado.

Para a economista Marilane Teixeira, pesquisadora das relações de trabalho e gênero e pós-doutora pela Universidade Estadual de Campinas, a mudança é central porque as mulheres seguem acumulando jornadas extensas dentro e fora de casa. “As pessoas querem se dedicar a viver outras dimensões da sua vida. Eu não tenho dúvida nenhuma de que isso tem um impacto muito grande entre os homens e, especialmente, entre as mulheres, porque elas ainda estão submetidas a uma jornada de trabalho nos lares muito extensa”, afirma.

Ela ressalta, contudo, que a medida precisa vir acompanhada de políticas que enfrentem a desigualdade na divisão do cuidado. “Se o número de horas que as mulheres dedicam ao trabalho doméstico e de cuidado é maior que o dos homens, então ter mais um dia livre, claro, não é exatamente o que a gente espera”, pondera.

Ao colocar o tempo no centro do debate, a proposta amplia as possibilidades de descanso, qualificação e participação social, assegurando condições para que mulheres possam estudar, conviver e participar de atividades políticas, culturais e comunitárias. A sobrecarga contínua tem reflexos na saúde física e mental, já que jornadas extensas e pouco descanso estão associadas ao aumento do estresse e do esgotamento profissional.

Impactos econômicos e geração de empregos
O debate sobre a redução da jornada também envolve desenvolvimento econômico. A nota técnica da Rede Brasileira de Economia Feminista (REBEF) aponta que a redução para 40 horas semanais pode contribuir para:

  • ampliar a formalização do trabalho;
    reduzir o desemprego feminino;
    fortalecer a arrecadação previdenciária;
    diminuir afastamentos por adoecimento decorrente de exaustão.

    Estudos citados no debate estimam que a redução da jornada pode gerar milhões de novos postos de trabalho, ampliando oportunidades para mulheres, que apresentam taxas de desemprego historicamente mais elevadas que as dos homens.

Ao colocar o tempo no centro da discussão, a proposta evidencia que as desigualdades de gênero não se expressam apenas em salários menores ou posições hierárquicas, mas também na forma como o tempo é organizado e distribuído na sociedade.

PECs em debate e cenário político
No Congresso Nacional, duas propostas tratam da redução da jornada e do enfrentamento da escala 6x1:

  • a PEC 8/25, apresentada por Erika Hilton;
    a PEC 221/19, de autoria de Reginaldo Lopes.

O presidente da Câmara, Hugo Motta, já indicou que o tema deverá entrar na pauta de debates nos próximos meses.

Para a CUT, é fundamental que qualquer mudança ocorra sem redução salarial e com mecanismos que impeçam formas de precarização, como a falsa pejotização e distorções nas contratações.

Pauta feminista
Neste Mês da Mulher, a luta pelo fim da escala 6x1 se coloca como pauta estratégica para enfrentar a sobrecarga e ampliar a autonomia econômica das trabalhadoras.

Reduzir a jornada é disputar o direito ao tempo para descansar, estudar, conviver, participar da vida política e cultural. É enfrentar a violência estrutural que atravessa o mundo do trabalho e reconhecer que as mulheres têm direito não apenas a sobreviver, mas a viver plenamente.

Ao defender a redução da jornada sem redução salarial, a CUT reafirma que justiça social e igualdade de gênero passam, necessariamente, pela reorganização do tempo de trabalho e pela valorização da vida das mulheres.