Mais de 160 mil escolas extintas no Brasil: fechamento ameaça direito à educação


Comunidades rurais são as mais atingidas pelo desmonte, com impactos diretos sobre estudantes, famílias e trabalhadores da educação

Publicado: 12/02/2026 17:18 | Última modificação: 12/02/2026 17:18

Escrito por: CNTE

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São alarmantes os dados sobre o fechamento de escolas no Brasil. Entre os anos de 2000 e 2024, 163.854 escolas foram extintas em todo o país, sendo 110.758 localizadas em territórios rurais e 53.096 em territórios urbanos. O cenário, segundo o Fórum Nacional de Educação do Campo, das Águas e das Florestas (FONEC), evidencia um processo contínuo de desmonte da educação pública, que atinge de forma mais severa as populações do campo.

Somente em 2024, foram 3.159 escolas extintas no Brasil, das quais 1.585 em territórios rurais e 1.574 em territórios urbanos. No mesmo ano, 31.321 escolas encontravam-se paralisadas em todo o país, sendo 18.201 em áreas rurais e 13.120 em áreas urbanas. Para o FONEC, esses números reforçam a gravidade da situação e a urgência de políticas públicas que garantam a manutenção das escolas nos territórios.

Para a secretária de Assuntos Educacionais da CNTE, Guelda Cristina de Oliveira, os dados revelam um cenário incompatível com o que a entidade defende. “Os números apresentados são alarmantes. Nós defendemos que os estudantes que estão no campo, na comunidade ribeirinha ou quilombola tenham acesso à educação no seu território, porque o projeto político-pedagógico da escola precisa ser pensado a partir da realidade desse povo”.

De acordo com o Fórum, o fechamento de escolas do campo provoca impactos diretos na vida das comunidades, como o deslocamento forçado de estudantes para centros urbanos, o aumento da evasão escolar e o enfraquecimento dos vínculos sociais e culturais. A entidade destaca que muitas dessas decisões são tomadas sem diálogo com as comunidades e desconsideram as especificidades territoriais da Educação do Campo.

Guelda reforça que o problema vai além do encerramento físico das unidades. “Quando a escola fecha e o estudante precisa ir para a cidade, ele passa a enfrentar uma realidade extremamente precária. Muitas crianças saem de casa às três ou quatro da manhã, dependem de transporte escolar de baixa qualidade e chegam cansadas. Esse estudante está em desvantagem quando comparado ao estudante urbano.”

No Nordeste, o fechamento de escolas do campo é ainda mais acentuado. Segundo o Diagnóstico das Escolas do Campo da Bahia (2025), apenas em 2019, mais de 29 mil escolas do campo foram extintas na região. Na Bahia, entre 2017 e 2021, foram registradas 20.337 paralisações e 5.521 fechamentos, evidenciando a dimensão do problema no estado.

Guelda conclui dizendo: “Não se faz educação pública de qualidade sem financiamento. Para garantir as mesmas condições de acesso para o estudante do campo, é fundamental ampliar o financiamento e assegurar escola no campo, com profissionais qualificados e estrutura adequada. O que temos visto é a adoção de uma lógica economicista que desconsidera a diversidade territorial e a realidade de cada estudante.”

Organização dos dados e denúncia nacional
O contexto geral do fechamento de escolas apresentado na nota do FONEC tem como base dados organizados pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação do Campo, das Águas e das Florestas nas Amazônias (GEPERUAZ), da Universidade Federal do Pará. Já os dados mais recentes, com recorte por estado, são organizados pelos fóruns estaduais de Educação do Campo que integram o FONEC.

No Paraná, foram fechadas 45 escolas em 2024 e outras 121 estão paralisadas, além de 8 escolas do campo que enfrentam processo efetivo de fechamento. Em Goiás, duas escolas estão sob ameaça, em meio à implantação do Programa Goiás Tec em unidades do campo. No Rio Grande do Sul, há o anúncio de fechamento de uma escola do campo e o encerramento do Ensino Médio em outra.

Na Paraíba, cinco escolas do campo foram fechadas no município de Barra de Santana. No Mato Grosso do Sul, uma escola foi fechada sem consulta à comunidade. No Pará, duas escolas tiveram fechamento deliberado pelos municípios.

No Espírito Santo, 21 escolas foram fechadas em 2025, além de outras que estão em processo de fechamento. No Amazonas, duas escolas do campo foram fechadas no município de Humaitá. Em Rondônia, cinco escolas foram fechadas em 2025 e outras quatro estão sob ameaça de fechamento.

Para o Fórum, a divulgação desses números é fundamental para denunciar a violação do direito à educação e fortalecer a luta pela manutenção e valorização das escolas do campo, das águas e das florestas como política pública essencial para o desenvolvimento dos territórios e a garantia de direitos.

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