"Data é para reflexão, não comemoração", diz dirigente do Sintep-MT sobre o Dia do Servidor


No 28 de outubro, servidor destaca o impacto das aposentadorias confiscadas, o déficit de concursos e o papel essencial do serviço público no atendimento à população.

Publicado: 27/10/2026 18:15 | Última modificação: 27/10/2026 18:15

Escrito por: Roseli Riechelmann

Divulgação

Servidor público por mais de 30 anos e hoje aposentado, Orlando Francisco, secretário de Finanças do Sindicato dos Trabalhadores no Ensino Público de Mato Grosso (Sintep-MT), já representou o Sindicato junto aos demais sindicatos de servidores públicos do estado. Acumula vasta experiência na defesa dos servidores da educação e das causas ligadas aos serviços públicos. Neste 28 de outubro, Dia do Servidor Público, ele reflete sobre os principais enfrentamentos da categoria.

“A situação do servidor nunca foi tranquila, sempre foi de grandes desafios. Nas décadas de 80 e 90, por exemplo, a realidade de atendimento era outra. Hoje nós enfrentamos um cenário diferente. Mas, tanto antes como agora, a precarização se faz presente. O que se mantém inabalável é a dignidade do trabalhador de reagir diante das adversidades”, destacou.

Sintep-MT
Secretário de Finanças do SIntep-MT, Orlando Francisco

O Estado de Mato Grosso conta hoje com pouco mais de 100 mil servidores, entre ativos e inativos. Estes últimos carregam o peso de uma precarização imposta pelas gestões estaduais também à ativa, exemplificada pela perda do poder de compra frente à inflação e pela taxação de 14% sobre as aposentadorias.

Conforme Orlando Francisco, o embate histórico dos servidores ocorre em oposição às diretrizes governamentais. Nas décadas anteriores, a escassez de infraestrutura era uma constante — prática que frequentemente virava a opinião pública contra a categoria. Com isso, os serviços estatais passaram a ser estigmatizados como ineficientes, abrindo caminho para que a privatização fosse vendida como solução.

“Apesar dessa narrativa, a prática já provou que, onde houve terceirização ou privatização, seja na educação ou na saúde, a precarização foi maior do que quando estava no atendimento do serviço público”, aponta.

Segundo Orlando Francisco, embora o governo crie um ambiente desfavorável, a máquina pública permanece essencial, sobretudo para as parcelas da população que mais dependem dela. “Nossa luta muitas vezes não é compreendida, já que parte da sociedade não aprofunda essa análise. Para muitos, o que fica evidente é apenas a má qualidade do atendimento ofertado na ponta”, pontua.

Sobre a nova gestão estadual que assumirá o governo em janeiro de 2027, o dirigente aponta contradições nas sinalizações de corte de custos. Segundo ele, o argumento de que o funcionalismo custa caro e de que o sistema não funciona, ignora o déficit crônico de pessoal. Ele lembra que a Segurança Pública sofre com a deficiência de pessoal, a Educação opera com mais de 70% de contratos temporários, e a Saúde Pública estadual está há mais de 20 anos sem realizar concursos públicos.

“Precisamos acreditar que os impostos pagos pelos cidadãos devem retornar em áreas essenciais. Temos o dever de defender a política pública, o Estado e quem o sustenta na prática. Nossa responsabilidade é garantir esse atendimento à sociedade”, afirma.

Questionado sobre os impactos das novas tecnologias no mundo do trabalho, Orlando acredita que,“as tecnologias são bem-vindas se vierem para servir e facilitar o trabalho, não para substituir o trabalhador”. Ele conclui ressaltando que o Dia do Servidor deve ser encarado muito mais como um momento de profunda reflexão do que de comemoração: “Os desafios são imensos, a gente tem que ir reinventando para enfrentar essa situação”.