A luta contra a violência às mulheres precisa sair do discurso e entrar nas políticas públicas
A violência contra mulheres ainda não se traduz em políticas efetivas nos municípios e estados da federação.
Publicado: 28/11/2025 11:35 | Última modificação: 28/11/2025 11:35
Escrito por: Artigo/María Celma Oliveirah
O dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, inicia a mobilização mundial dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Meninas e Mulheres. Junto a essa campanha, vem também a simbólica mobilização do Laço Branco, que convoca homens a assumirem o compromisso de não cometerem violência e de não serem cúmplices dela.
São campanhas importantes, históricas e necessárias. Contudo, depois de mais de três décadas, a violência contra mulheres ainda não se traduz em políticas efetivas nos municípios e estados da federação.
Infelizmente, muitos governantes não têm o compromisso necessário para enfrentar uma violência que mata mulheres por serem mulheres. Essa realidade é evidenciada em Mato Grosso, um estado com um dos maiores PIBs do país, mas que trata políticas sociais como gasto e não como investimento. O resultado disso é que há dois anos se mantém como campeão nacional em feminicídios, caminhando para o vergonhoso tricampeonato em 2025.
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Esses números não deveriam figurar nos indicadores apenas como estatísticas; são vidas arrancadas, lares destruídos, crianças órfãs, famílias desfeitas. São mulheres mortas pelos próprios companheiros, dentro das próprias casas, nos lugares onde deveriam se sentir mais seguras.
Somente no primeiro semestre de 2025, foram 34 feminicídios, um aumento de 31,57% em relação ao mesmo período do ano anterior. Ainda mais revoltante é saber que o município de Sorriso, cidade símbolo da pujança do agronegócio, ocupa a segunda maior taxa nacional de estupro de mulheres e crianças, de acordo com o Anuário da Segurança Pública de 2025. Em 2023, o município Sorriso liderou o ranking e agora ocupa a segunda posição. Uma marca cruel que desmonta o mito de que desenvolvimento econômico, por si só, melhora a vida das pessoas.
Enquanto o Estado se recusa a efetivar políticas de prevenção, punição e assistência, as mulheres seguem morrendo, e morrendo porque são mulheres. É impossível falarmos em prevenção sem falarmos de educação. No entanto, vivemos tempos em que discutir gênero nas escolas é atacado como “ideologia”, “doutrinação” ou “coisa de feministas”. Esse discurso raso e perigoso é fruto de ignorância e, pior, de uma estratégia consciente para manter a misoginia intacta, preservando privilégios e reforçando a violência contra corpos femininos.
A contradição é gritante quando lembramos que as mulheres são maioria no Brasil: 51,5% da população, segundo o IBGE. Defender que o combate à violência contra a mulher esteja no currículo escolar é defender muito mais do que um conteúdo: é defender a vida, autonomia, dignidade e cidadania. Isso inclui obrigatoriamente o debate racial, porque no Brasil quem mais sofre violência é a mulher negra, vítima do machismo, do racismo estrutural e da ausência histórica das políticas sociais pelo Estado.
A luta pela vida não pode ser simbólica, ela precisa sair do calendário e entrar no orçamento, com delegacias especializadas funcionando de verdade, políticas de acolhimento e proteção eficientes e redes de cuidado que não abandonem vítimas. Nós sabemos o que precisa ser feito. Só falta vontade política. A vida das mulheres precisa ser prioridade. Agora, já!




