No último dia 30 de abril, a Internacional da Educação (IE) realizou um webinário para refletir sobre o aumento dos gastos militares e seu impacto no financiamento da educação e nos serviços públicos em nossos países. A fala do Presidente da IE foi muito potente e quero na coluna desta semana publicar esse importante alerta do Mugwena Maluleke, líder sindical sul-africano que, hoje, ocupa a presidência da nossa maior entidade de representação global dos educadores e educadoras de todo o mundo. Seu texto, transcrito abaixo na íntegra, se chama “Financiar a vida, não a guerra”:
“Caros colegas, amigos e parceiros, sou Mugwena Maluleke, professor de matemática, ativista e sindicalista. Sou o presidente da Internacional da Educação, que reúne mais de 33 milhões de professores e profissionais de apoio à educação em 180 países e territórios. Como professores e profissionais de apoio à educação, vemos e sentimos o impacto direto da guerra e as consequências dos gastos militares obscenos.
Vemos que os conflitos estão se ampliando. A repressão está se intensificando. O espaço cívico está encolhendo. O medo e a militarização estão se acelerando a um ritmo alarmante. Em todo o mundo, os governos contam uma história muito familiar: Não há dinheiro. Não há dinheiro para escolas. Não há dinheiro para professores. Não há dinheiro para serviços públicos, resiliência climática ou proteção social. Mas sabemos que o dinheiro existe. Ele parece aparecer magicamente quando se trata de comprar mais bombas, mais tanques, mais navios de guerra. Como mostram os novos dados divulgados recentemente, os gastos militares globais chegam agora a quase três trilhões de dólares por ano. Os gastos militares aumentaram por onze anos consecutivos, crescendo mais de 40% na última década. Somente os países da OTAN são responsáveis por mais da metade dos gastos militares globais. Esses números nos mostram que não se trata de falta de recursos. Trata-se de prioridades políticas.
Como disse Martin Luther King Jr. em 1967: ‘Temos mísseis guiados e homens mal orientados’. As consequências são devastadoras para a educação e para nossas comunidades. Enquanto os orçamentos militares aumentam, os gastos com educação em todo o mundo estão diminuindo. A média dos gastos públicos com educação caiu de 14,4% do total dos gastos públicos em 2010 para 12,6% em 2024. Quase dois terços dos países cortaram gastos com educação entre 2015 e 2023. Trata-se do desvio contínuo da riqueza pública das salas de aula para o campo de batalha. Colegas, um único caça a jato moderno custa entre 80 e 120 milhões de dólares. Esse mesmo valor poderia pagar os salários anuais de 1.500 a 3.000 professores, dependendo do contexto do país. Poderia construir centenas de salas de aula com materiais didáticos e educadores qualificados. Poderia manter sistemas inteiros de ensino público funcionando por anos. Um ano de gastos militares globais é suficiente para financiar integralmente uma educação pública de qualidade para todas as crianças atualmente fora da escola, muitas vezes mais. Considere o seguinte: O custo operacional anual de um esquadrão de caças avançados pode exceder o que é necessário para administrar um programa nacional completo de formação de professores. O custo de um único tanque de guerra pesado — frequentemente na casa dos dez milhões de dólares ou mais — poderia financiar uma escola rural para toda uma geração.
Enquanto isso, pede-se aos professores que aceitem salas de aula superlotadas, horas extras não remuneradas, salários congelados e condições de trabalho inseguras — mesmo com os orçamentos militares crescendo ano após ano. Em zonas de conflito, professores e comunidades educacionais perdem muito mais do que financiamento. Eles perdem a segurança. Eles perdem colegas. Eles perdem alunos. Eles perdem as próprias escolas — destruídas, ocupadas ou transformadas em postos militares, em violação ao direito internacional. Mesmo quando as bombas param de cair, os danos permanecem. Anos de escolaridade perdidos. Alunos traumatizados. Uma geração de professores exaustos, mal remunerados e dos quais se espera que reconstruam sociedades com menos recursos do que antes. Devemos defender as escolas contra-ataques e militarização — e deixem-me ser claro: as escolas nunca devem ser alvo de ataques, ocupadas ou transformadas em instrumentos de guerra.
Caros colegas e amigos, devemos fazer a pergunta mais básica: todos esses gastos militares nos tornam mais seguros? O mundo de hoje nos dá a resposta: Os conflitos armados estão aumentando. O deslocamento forçado está em níveis recordes. O número de refugiados e pessoas deslocadas internamente continua a crescer. A paz global está se deteriorando. A militarização não trouxe segurança. Trouxe corridas armamentistas, instabilidade regional e insegurança permanente. Quando o conflito se intensifica, os orçamentos são direcionados para as armas da morte e afastados dos serviços que sustentam a vida e a dignidade. O aumento dos gastos militares é rotineiramente acompanhado por restrições salariais para os funcionários públicos. Os orçamentos para a educação são adiados ou totalmente cortados. A negociação coletiva é suspensa em nome da “segurança nacional”. Líderes sindicais são perseguidos, ameaçados ou silenciados. Vemos esse padrão em toda parte — de Gaza à Ucrânia, do Sudão à República Democrática do Congo, de Mianmar ao Irã.
Caros colegas, existe outro caminho — e sabemos que ele funciona. Em todo o mundo, a educação pública provou ser uma das ferramentas mais poderosas para a construção da paz. Porque a verdadeira segurança é um professor qualificado em cada sala de aula. É uma escola que acolhe meninas, refugiados e crianças com deficiência. É um currículo que ensina história com honestidade, promove o pensamento crítico e rejeita o ódio. Em países pós-conflito, como Ruanda, Serra Leoa e Colômbia, o investimento na educação pública inclusiva ajudou a reconstruir a confiança, reintegrar ex-combatentes e restaurar a coesão social. A educação para a paz, o aprendizado da língua materna e a governança escolar democrática ajudaram as sociedades a enfrentar passados traumáticos e a prevenir ciclos de vingança. Em países que acolhem refugiados — da Jordânia a Uganda — a educação para alunos deslocados reduziu o risco de radicalização, trabalho infantil e casamento precoce, ao mesmo tempo em que fortaleceu a estabilidade nas comunidades anfitriãs.
Esses não são resultados simbólicos. São contribuições concretas para a paz. A educação cria condições que as armas nunca poderão criar: pensamento crítico, diálogo social, empatia, espaço cívico compartilhado e esperança para o futuro. Em vez de um futuro baseado na destruição mútua assegurada, precisamos de um futuro baseado na construção mútua assegurada. A Internacional da Educação afirma isso claramente: não se constrói a paz com caças a jato. Constrói-se a paz e a segurança financiando a vida. A paz não é passiva. A paz é algo que se constrói. A justiça não é algo inevitável. A justiça é algo pelo qual se luta. Obrigado!”.
Que essas palavras do nosso presidente da IE, um verdadeiro tratado sobre a paz no mundo por meio da educação pública, nos inspirem a, cada vez mais, construir um outro mundo possível! Pelo fim de todas as guerras e do imperialismo que as fomenta, seguimos firmes na luta por um mundo de paz!
(*) Por Heleno Araújo, professor, ex-presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e atual coordenador do Fórum Nacional da Educação (FNE).