Escrevo esta reflexão observando a dura realidade que a educação mato-grossense enfrenta nos últimos oito anos. Compreendo que, em tempos de polarização, analisar o cenário com sobriedade costuma atrair o habitual apedrejamento virtual daqueles que preferem o dogmatismo ao debate. No entanto, o compromisso com a realidade exige que avancemos. Falo a partir da experiência de quem já acompanhou 14 audiências públicas sobre o modelo cívico-militar. Embora a dinâmica mude de região para região, há uma constante que nunca falha: a abordagem impositiva e o tom truculento na apresentação dos projetos.
Tomemos como exemplo a assembleia mais recente, realizada na Escola Estadual Professora Maria da Cunha Bruno, na Cohab Jardim Primavera, em Várzea Grande. O evento parecia menos uma explicação técnica sobre o funcionamento do modelo e mais um palanque de campanha política para o então secretário de Educação, Alan Porto. Contudo, o ponto central desta reflexão não é o oportunismo político, mas a postura da atual diretora da Diretoria Metropolitana de Educação (DME). Diante dos questionamentos apresentados, ela afirmou: “Quem não se adequar ou quem não gostar do modelo pode procurar outra escola!”
Isso representa o ápice do absurdo. Como pode uma profissional da área da educação, cuja missão deveria ser acolher e garantir o acesso e a permanência dos estudantes, sugerir a evasão escolar daqueles que não se submetem a um modelo imposto de forma autoritária?
Sob o pretexto de promover disciplina, segurança e outras promessas, dissemina-se um viés ideológico tolerado pela conivência de alguns e pelo cansaço de outros. Fica evidente a contradição: nas redes sociais oficiais, prevalece o slogan cuidadosamente ensaiado “SOMOS TODOS EDUCAÇÃO”. Nos bastidores e no cotidiano das unidades escolares, porém, o que se observa é a imposição de um formato educacional considerado retrógrado por seus críticos. Trata-se de um modelo que ignora as demandas pedagógicas individuais dos estudantes e acumula um histórico preocupante, amplamente denunciado pela imprensa, envolvendo desde abusos de autoridade até outras graves violações de direitos dentro dessas instituições.
O que testemunhamos em Mato Grosso é a transformação da educação pública em um laboratório de exclusão. Aqueles que defendem uma escola acolhedora, capaz de formar cidadãos críticos e conscientes de seus direitos, assistem ao fechamento das portas para a pluralidade. O destino reservado à juventude mato-grossense parece ser o de se tornar massa de manobra, triturada por uma engrenagem que criminaliza a diferença e padroniza o pensamento.
Se hoje a rede estadual enfrenta um cenário de precarização, a responsabilidade, na visão do autor, não recai sobre professores ou estudantes. O problema está na transformação da escola em um palco de disputas políticas, restando aos profissionais da educação o papel mais ingrato desse espetáculo. Tudo isso para alimentar projetos de poder e atender às agendas daqueles que hoje ocupam o Palácio Paiaguás e os gabinetes da Secretaria de Estado de Educação.
Layan Razec de Moura Silva - Coordenador do Núcleo Secundarista e Diretor da UEE-MT